Sentindo...

Para sentir, agora que o Natal se aproxima. Este poema doí-me. Façam o favor de o ler até ao fim.


Quando um Homem Quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento 
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento 
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme 
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume 
e sofres o Natal da solidão sem um queixume 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Natal é em Dezembro 
mas em Maio pode ser 
Natal é em Setembro 
é quando um homem quiser 
Natal é quando nasce 
uma vida a amanhecer 
Natal é sempre o fruto 
que há no ventre da mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar 
tu que inventas bonecas e comboios de luar 
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei 
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei 
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas' 




10 comentários

  1. Gosto muito deste poema, apesar da dor, e da triste realidade, nele expresso
    Desejo-lhe um feliz Natal com todos os que ama, eu voltarei dia 26.
    Abraço

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  2. E dói mesmo, um belo poema do grande Ary dos Santos que infelizmente está muito esquecido.
    Um abraço e BOAS FESTAS.

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  3. Não o conhecia, mas é um bonito poema!

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